Calçado Desportivo Femenino

 

 

Tradicionalmente o calçado (d)esportivo feminino pouco mais era do que uma versão em tamanhos menores do calçado masculino. Desde 2000, os fabricantes lentamente começaram a diferenciar o calçado feminino do masculino por razões anatómicas, morfológicos e biomecânicas. Primeiro, pequenas alterações e eventualmente adaptações mais específicas às diferenças anatómicas e estruturais femininas.

As mulheres precisam de calçado (d)esportivo diferenciado pelas seguintes razões:

  • A anatomia dos pés femininos
  • A percentagem de massa corporal
  • A Biomecânica
  • O ciclo de ovulação

A anatomia dos pés femininos

Os pés femininos apresentam um tornozelo mais estreito em relação ao ante pé que os masculinos, se compararmos dois pés, um masculino e outro feminino, com o mesmo comprimento, o feminino apresentará um tornozelo mais estreito. Por essa razão, quando se calça um par de sapatos masculinos a uma mulher, por vezes acontece um escorregar (vulgo chinelar) no calcanhar. Esta diferença anatómica, é muitas vezes a razão por detrás das senhoras comprarem calçado alguns tamanhos abaixo; fazem-no para não sentir esse irritante chinelar. A solução não passa por utilizar calçado menor, compre os sapatos com a largura adaptada, caso o chinelar persista, modifique a técnica de laçagem do calçado. Para acomodar corretamente o pé feminino os fabricantes começaram a utilizar formas adaptadas às necessidades específicas das mulheres, adicionalmente é comum ver o tornozelo/calcanhar dos sapatos com maior almofadado.

Rácio ante pé retro pé: os pés femininos apresentam um ante pé mais largo em relação ao retro pé.

Sapatos femininos com almofadado extra no tornozelo/calcanhar

A percentagem de massa corporal

Estatisticamente uma mulher como mesmo tamanho de sapato de um homem possui aproximadamente menos 15% de massa corporal, isso implica que a firmeza da sola intermédia deve estar ajustada ao menor peso, permitindo a sola comprimir para distribuir as forças de choque. Menor peso significa sola intermédia mais macia, igualmente os sapatos femininos devem possuir canais de flexão mais profundos, facilitando a flexibilidade.

Modelo semelhante em versão masculina (esquerda) e feminina. Os canais de flexão diferem, assim como o formato e largura do sapato.

Sola intermédia

A Biomecânica

Por razões que têm que ver com a gestação, as mulheres apresentam a pélvis mais larga proporcionalmente aos homens. O ângulo formado pela linha que se estende desde a anca até o centro do joelho (rótula/patela) e a linha que vai do centro do joelho até à tíbia, é denominado ângulo Quadricipital ou ângulo Q. Na literatura, a média apresentada para as medidas deste ângulo encontra-se em 11 graus para o sexo masculino e 14 graus para o sexo feminino. A relação entre a pélvis e o joelho nas mulheres, provoca diferenças biomecânicas no desporto; as mulheres tendem a atacar o solo com o pé mais supinado, resultando numa rotação interna mais intensa. Esta pronação acrescida não estabilizada, poderá resultar num aumento das lesões. Alguns fabricantes, têm esta diferença biomecânica em conta; as principais implicações no design do calçado incluem unidade de dupla densidade específica, um calcanhar mais arredondado e com material de absorção visco elástico colocado de forma a atrasar a rotação inicial dos pés femininos após o contacto inicial com o solo.

 

Diferenças ângulo Q

 

Diferenças ângulo ataque ao solo e unidades de amortecimento em modelos semelhantes; versão feminina (esquerda) e versão masculina.

O ciclo de ovulação

Além de diferenças estruturais e anatómicas, entre os dois sexos, existem igualmente diferenças hormonais. Intuitivamente muitas mulheres desportistas já associavam algumas lesões desportivas com os seus períodos de fertilidade. No final da década de 2000, os investigadores demonstraram que durante os picos de presença de estrogénio no organismo (que funciona como relaxante muscular), a fascia plantar é afetada, ficando mais elástica, influenciando o comportamento biomecânico designado por "windass mechanism", o arco medial do pé fica mais plano e a velocidade de aceleração mediolateral dos joelhos aumenta, fator que alguns investigadores suspeitam estar associado com o aparecimento de certas lesões. Atendendo a estas alterações biomecânicas cíclicas, alguns fabricantes de calçado desportivo lançaram modelos com materiais deformáveis aplicados no lado medial, que permitem acomodar as diferenças anatómicas do arco plantar causadas pelos ciclos. Adicionalmente, alguns modelos femininos possuem um rácio entre o calcanhar e ante pé mais elevado (maior cunha), reduzindo a probabilidade de aparecimento de certas lesões que se suspeita estarem associadas com a rotação dos joelhos.

Esquema representativo do windlass mechanism

 

Material deformável e elevação extra do calcanhar 3 mm em modelo feminino.

Generalidades

Conclusão

O sexo feminino exige calçado desportivo diferente; as mulheres possuem diferenças morfológicas, anatómicas e biomecânicas relativamente aos homens. Os fabricantes de calçado desportivo têm tido estas diferenças em conta, aplicando o conhecimento no desenvolvimento de calçado apropriado. Nem sempre é fácil encontrar calçado (d)esportivo feminino adequado, dependendo do desporto e das necessidades específicas, poderá optar por um modelo masculino, modificando-o (exemplo técnica de laçagem, ou criando canais de flexão na sola intermédia por debaixo da palmilha). Um bom especialista em calçado desportivo poderá ser uma ajuda útil.